Não cobre além do que seu filho pode dar. O desenvolvimento infantil tem fases que devem ser respeitadas!

Eu te criei para ser o melhor!

Diante de uma sociedade que busca resultados e múltiplas habilidades para autenticar o valor pessoal, muitas famílias têm transformado o processo de aquisição de valores, conhecimentos e habilidades de seus filhos em um furacão de cobranças.

Formando uma geração de crianças que não se abrem para o aprendizado do novo por medo de não corresponder a expectativas impostas. Não compreendendo o erro como processo de aprendizagem e sim de fracasso.

O resultado tem sido crianças que funcionam movidas pela ansiedade, estimulando transtornos psicológicos que poderão aparecer tanto na infância como na fase adulta.
“Hoje é dia de natação, amanhã você fará judô, na sexta eu irei assisti-lo no futebol, comece a treinar desde já, pois eu quero lhe ver sendo o melhor da turma!” No meu consultório essa tem sido uma frase típica nas entrevistas iniciais com os pais.

Após os Transtornos de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e os de conduta, os transtornos ansiosos encontram-se entre as doenças psiquiátricas mais comuns em crianças e adolescentes. De acordo com dados do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, até 10% das crianças e adolescentes sofrem de algum transtorno ansioso e mais de 50% das crianças ansiosas experimentaram um episódio depressivo como parte de sua síndrome ansiosa. Em crianças, o desenvolvimento emocional influi sobre as causas e a maneira como se manifestam os medos e as preocupações.

Ao investigar o histórico familiar de muitos casos logo nos deparamos com perfis de pais competitivos, ansiosos e com uma autoimagem negativa e indo mais longe podemos também constatar avós com os mesmos padrões de funcionamento, muitos deles chegam ao consultório com quadro de Transtornos ansiosos, Transtorno de Ansiedade Generalizada, Transtorno do Pânico, pelo ímpeto de querer manter o controle e domínio sobre todas as situações.

Em grande parte das famílias uma criança que não seja capaz de realizar nas primeiras aulas de uma atividade um gol numa partida de futebol, que não consiga ser espontânea na apresentação de ballet ou que seja a última a bater na borda da piscina na aula de natação, tem como recompensa um semblante de insatisfação e logo em seguida uma frase como “Se você não fizer direito, eu vou te tirar dessa atividade!”. É oferecido a criança um arsenal de atividades, porém é ignorado o processo de ensino/aprendizagem, requer treino, requer dedicação, requer um processo composto da superação de obstáculos. Crianças que não sabem lidar com o fracasso não se abrem para o processo de aprendizagem, não conseguem passar um mês em uma determinada atividade proposta, pois logo se frustram e se desestimulam com desafios não alcançados.

Toda atividade apresentada a criança, inclusive as escolares, precisam ser interpretadas pelos pais como um momento de construção. Algumas medidas eficazes precisam ser postas em prática pelos pais nesse processo: Estimule a criança de forma natural, evitando exageros, fazendo-a enxergar o seu progresso através dos pequenos acertos (aqueles que um adulto focado em resultados nunca perceberia) como amarrar os cadarços dos tênis sozinha, tirar uma nota 7 e chegar em segundo ou terceiro lugar em uma corrida.

Reafirme a individualidade de seu filho não comparando-o com o desempenho de outras crianças.

Não cobre além do que seu filho pode dar. O desenvolvimento infantil tem fases que devem ser respeitadas!

Não crie desculpas para os erros. Pais que idealizam mil pretextos e explicações para as falhas dos filhos sabotam o desenvolvimento pleno das noções de responsabilidade infantil, pois elas serão incapazes de perceber o que precisam aperfeiçoar para acertar.


Dr. Rodrigo Freitas é Psicólogo Clínico – Terapeuta Cognitivo Comportamental. Orientador de grupos terapêuticos de Desenvolvimento de Habilidades Sociais (DHS) e palestrante nas áreas de Inteligência Emocional, Orientação de Pais e Educação Positiva. Pós graduado em Psicopatologia e Psicodiagnóstico Infantil e em ABA – Análise do Comportamento Aplicada. Possui formação clínica em Terapia Cognitivo Comportamental de crianças e adolescentes. Possui extensão em Dependência de Substâncias Psicoativas pela Universidade Federal de São Paulo.